Algumas pessoas passam boa parte da vida ouvindo que são inteligentes, criativas, sensíveis ou capazes de aprender com facilidade. Ainda assim, enfrentam dificuldades persistentes para organizar a rotina, manter o foco, lidar com mudanças ou administrar a sobrecarga.
Quando altas habilidades/superdotação coexistem com uma condição do neurodesenvolvimento, como o TDAH ou o autismo, podemos estar diante de um perfil de dupla excepcionalidade.
Essa combinação pode tornar a compreensão do próprio funcionamento mais complexa. Afinal, como explicar que uma pessoa tenha facilidade para compreender assuntos complexos, mas encontre dificuldades em tarefas aparentemente simples do cotidiano?
A dupla excepcionalidade envolve a presença simultânea de habilidades elevadas e necessidades específicas de suporte. Essas características não se anulam e podem se manifestar de maneiras diferentes em cada pessoa.
Um adulto pode apresentar raciocínio elaborado, criatividade e interesses intensos, mas também vivenciar dificuldades relacionadas à organização, à gestão do tempo, à atenção, à regulação emocional ou ao processamento sensorial.
Em alguns casos, as habilidades desenvolvidas contribuem para compensar determinadas dificuldades. Isso pode fazer com que as necessidades de suporte passem despercebidas durante muito tempo, inclusive pela própria pessoa.
Quando existe uma diferença significativa entre aquilo que a pessoa sabe que pode fazer e o que consegue realizar em determinadas situações, podem surgir frustração, culpa e autocobrança.
É possível compreender uma tarefa, ter ideias para desenvolvê-la e, ainda assim, encontrar dificuldades para iniciá-la, organizá-la ou concluí-la. Também pode haver uma grande capacidade de adaptação em alguns contextos, acompanhada de exaustão em outros.
Essas experiências não significam falta de esforço ou ausência de potencial. Elas indicam a importância de compreender como diferentes características do funcionamento individual interagem com as demandas do ambiente.
O acompanhamento de adultos com dupla excepcionalidade precisa ir além da identificação de dificuldades ou da valorização exclusiva das habilidades.
É importante reconhecer os recursos, os interesses e as capacidades da pessoa, sem desconsiderar suas necessidades de suporte. O objetivo não é exigir que ela utilize seu potencial o tempo todo, mas ajudá-la a encontrar formas mais sustentáveis de viver, trabalhar, aprender e se relacionar.
A psicoterapia pode oferecer um espaço para compreender a própria trajetória, desenvolver estratégias para lidar com a sobrecarga e construir uma relação mais acolhedora com as próprias características.
Reconhecer suas habilidades não significa precisar dar conta de tudo. Compreender suas dificuldades também não diminui o seu potencial.
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