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Masking: quando se adaptar começa a custar caro demais

Em muitos contextos da vida, adaptar o próprio comportamento pode ser necessário.

Observamos outras pessoas, entendemos regras sociais, ajustamos a maneira de falar e aprendemos formas diferentes de nos comportar dependendo do ambiente.

Para algumas pessoas neurodivergentes, porém, esse processo pode se tornar muito mais constante e desgastante.

É nesse contexto que aparece o chamado masking, ou camuflagem: estratégias usadas para esconder, controlar ou modificar determinadas características do próprio funcionamento para atender às expectativas do ambiente.

Quando adaptar-se deixa de ser uma escolha

Nem toda adaptação é necessariamente negativa.

Existem situações em que escolher determinada estratégia social pode ser útil e até importante.

A questão começa a mudar quando a sensação é de que não existe escolha.

A pessoa passa a sentir que precisa observar permanentemente como está falando, reagindo ou se comportando para evitar críticas, rejeição ou a percepção de que está sendo “diferente demais”.

Com o tempo, essa vigilância pode exigir um esforço significativo.

Em vez de apenas participar de uma interação, por exemplo, a pessoa também pode estar tentando acompanhar mentalmente uma série de regras sobre como deveria agir naquele momento.

“Funcionar bem” não significa necessariamente estar bem

Um dos desafios do masking é justamente sua pouca visibilidade.

Quem observa de fora pode enxergar alguém que trabalha, estuda, mantém relacionamentos e responde às demandas da rotina.

Mas essas informações, isoladamente, não mostram quanto esforço está sendo necessário para sustentar esse funcionamento.

Uma pessoa pode parecer bem adaptada e, ainda assim, terminar determinados dias completamente exausta.

Pode cumprir todas as tarefas esperadas e sentir que vive constantemente no limite.

Pode conseguir socializar e, depois, precisar de muito tempo para se recuperar.

Por isso, olhar apenas para aquilo que uma pessoa consegue fazer pode esconder uma parte importante da experiência: o custo necessário para conseguir fazer.

Esse é um aspecto central do olhar clínico proposto no trabalho da Mariana.

Algumas adaptações podem ter se tornado automáticas

Quando determinadas estratégias começam muito cedo, pode ser difícil perceber que elas existem.

Talvez a pessoa tenha aprendido a observar cuidadosamente como os outros se comportam antes de participar de uma conversa.

Talvez ensaie mentalmente aquilo que pretende dizer.

Pode evitar determinados comportamentos porque aprendeu que eles chamariam atenção.

Também pode controlar reações ou necessidades para evitar parecer inadequada.

Com o tempo, estratégias assim podem ser incorporadas à rotina a ponto de parecerem completamente naturais.

Por isso, reconhecer masking nem sempre significa identificar conscientemente um momento em que a pessoa decidiu “usar uma máscara”.

Muitas vezes, significa perceber padrões de adaptação construídos ao longo de anos.

O problema não é simplesmente se adaptar

Uma abordagem neuroafirmativa não precisa partir da ideia de que toda adaptação social deve ser abandonada.

Existem contextos em que determinadas estratégias podem ser úteis, desejadas ou escolhidas pela própria pessoa.

A diferença está na possibilidade de escolha.

Na terapia, pode ser importante observar quando uma estratégia ajuda a pessoa a transitar por determinado ambiente e quando ela começa a exigir um preço alto demais.

Algumas perguntas podem ajudar nessa reflexão:

  • Estou fazendo isso porque quero ou porque sinto que não posso agir de outra maneira?
  • Quanto esforço essa situação exige de mim?
  • Como me sinto depois de permanecer muito tempo nesse ambiente?
  • Estou constantemente escondendo necessidades para não incomodar outras pessoas?
  • Tenho espaços em que consigo diminuir essa vigilância?
  • Essa adaptação contribui para minha vida ou está aumentando minha sobrecarga?

Essas perguntas não oferecem respostas prontas, mas ajudam a perceber o que determinadas estratégias representam individualmente.

A sobrecarga merece ser considerada

Quando a adaptação é constante, ela pode fazer parte de um cenário mais amplo de sobrecarga.

As exigências profissionais, sociais, familiares e acadêmicas continuam existindo ao mesmo tempo em que a pessoa administra o próprio esforço para corresponder ao que espera-se dela.

O resultado pode ser uma rotina em que existe muito pouco espaço para recuperação.

Nesse contexto, dificuldades com organização, regulação emocional, procrastinação ou tolerância ao estresse também podem se tornar mais intensas.

Por isso, trabalhar apenas para que alguém “se adapte melhor” pode não responder à questão principal.

Também é necessário compreender quais demandas podem ser reorganizadas, quais necessidades precisam ser reconhecidas e quais estratégias são realmente sustentáveis.

A terapia pode ser um lugar para experimentar menos performance

Um espaço terapêutico neuroafirmativo procura reduzir a expectativa de que a pessoa precise constantemente apresentar a versão mais adequada, organizada ou socialmente confortável de si mesma.

Não é necessário chegar com tudo explicado.

Não é necessário saber exatamente o que está acontecendo.

Também não é necessário demonstrar que uma dificuldade é suficientemente grave para merecer atenção.

A proposta é compreender o funcionamento individual e construir estratégias a partir dele.

No trabalho descrito pela Mariana, isso envolve acolhimento, validação, participação ativa da pessoa e recursos inspirados especialmente na Terapia Dialética Comportamental, sempre considerando aquilo que faz sentido para cada caso.

Masking não precisa ser tratado como algo que simplesmente deve desaparecer.

A questão pode ser outra: quando adaptar-se é uma escolha e quando adaptar-se está fazendo você desaparecer de si mesmo?

Perceber essa diferença pode ser um passo importante para construir relações, rotinas e ambientes mais sustentáveis.

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Rua Carlos Gomes, 354, Centro, Cordeirópolis- SP

Mariana Muniz

CRP 06/123310

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